Um dos assuntos que ao meu ver que foi mais por assim dizer
“estressado” nos canais cristãos na internet é a famosa pergunta de “Qual
Bíblia devo utilizar?” ou “Qual é a melhor tradução?”. É impressionante quantas
dúvidas são geradas sobre o tema, e mais impressionante ainda quantas respostas
diferentes são publicadas. Tudo isso porque muitas vezes, a visão dos textos
sagrados varia muito da vontade do leitor. Alguns querem uma Bíblia de estudos,
outros para leitura em comunidades e pastorais e outros apenas para meditação e
contemplação.
Procurei então dentro do possível fazer um post completo,
não tentando induzir o estudante a adquirir uma determinada versão, mas a
entender a diferença delas para escolher a melhor opção. Partindo desse ponto,
responderemos as perguntas propostas. Lembrando que existem centenas de fontes
na internet que podem lhes dizer algo totalmente diferente do que irei abordar.
Estou utilizando como fonte desta pesquisa as edições, as editoras que as publicam,
seus diversos fins e pela experiência de discussão sobre o tema, seja ele no
mundo real e na internet.
Obs.: Para o artigo eu utilizei somente Bíblias católicas. Se um dia houver demanda, posso fazer também falando das demais traduções (protestantes, judaicas, ortodoxas, etc).
Obs.: Para o artigo eu utilizei somente Bíblias católicas. Se um dia houver demanda, posso fazer também falando das demais traduções (protestantes, judaicas, ortodoxas, etc).
“Qual Bíblia devo
utilizar?” ou “Qual a melhor tradução?”
A resposta mais precisa para essas perguntas seria outra
pergunta: “Para qual finalidade você
precisa da Bíblia?”. É necessário ver o que se adéqua a sua necessidade e que uso você fará dos textos sagrados. Isso fará total diferença na escolha da versão e como você irá interagir com o texto.
Existem três tipos
basicamente de traduções bíblicas:
As literais: Que
mantem-se fiéis aos textos originais em hebraico, aramaico e grego. São as mais
utilizadas pelos estudantes de teologia e geralmente são ricas em notas
exegéticas. A desvantagem é, de como a tradução literal é mais formal, dado a
idade dos textos, ela é de difícil entendimento e compreensão,
"engessando" um pouco a leitura.
As dinâmicas: Que
substituem palavras dos textos originais para sinônimos ou equivalências mais
próximas da nossa realidade linguística. Não mudam - em tese- seu significado,
além de tornarem a leitura mais leiga e suave. A desvantagem é que se perdem alguns
termos linguísticos próprios do idioma original, que muitas vezes não são tão
relevantes para o público leigo em geral. Vejam que a maioria das Bíblias
católicas possuem essa forma de linguagem mais acessível, uma vez que visam seu
uso pastoral.
As parafraseadas:
São traduções simplistas, sem se preocuparem formalmente com os textos
originais. Podem ser úteis para pessoas que tem o primeiro contato com a
Sagrada Escritura, porém contém diversos equívocos resultado da tradução
informal demais e podem deturpar o entendimento de muitas passagens.
Geralmente o texto se encaixa em uma categoria, porém pode
acontecer de seu uso ser diferente do que a própria tradução propõe - a Bíblia
Ave Maria por exemplo, possui um texto acessível, porém existe uma versão com
rodapés de estudo da mesma, o que em tese pode ser utilizada como Bíblai de
estudos. A maioria das Bíblias católicas seguem o segundo tipo listada, ou
seja, o dinâmico, portanto procurei para melhor assimilação e entendimento,
dividi-las em duas formas básicas: Bíblias de uso comum ou pastoral e Bíblias
de estudo.
Bíblias de uso
Pastoral:
Bíblia Sagrada Ave
Maria (Ed. Ave Maria): A Bíblia Ave Maria, mantida pela editora Ave Maria
desde 1959 da missão Claretiana, é uma tradução do francês da versão dos monges
beneditinos belgas de Maredsous. Foi considerada uma das melhores traduções do
mundo na época que foi lançada, sendo hoje uma das duas versões mais utilizadas
pelos católicos (só não afirmo como a mais utilizada porque a Bíblia Pastoral
da Paulus possui também uma ampla distribuição). Eu costumo fazer a analogia
que a Bíblia Ave Maria está para os católicos, como a Bíblia tradução Almeida
está para os protestantes, pelo fato de sua popularidade e uso. Já vi diversos comentários
de pessoas que adoram e as que detestam essa tradução, alegando falhas na
tradução. Isso ocorre na realidade porque essa tradução possui uma “suavização”
de diversos termos para tornar a leitura mais bela e compreensível do que os
termos duros de uma tradução literal trariam – como no livro de Josué, por
exemplo, quando Javé diz que é um Deus “ciumento” (c.f. tradução da Bíblia de
Jerusalém), a Ave Maria opta por traduzir como “zeloso”. Porém isso não deturpa
ou prejudica o conteúdo de forma alguma. Ela é bastante popular junto a
Renovação Carismática, porém mais ainda, tenho percebido que justamente pelo
seu encaminhamento fortemente católico ela é a tradução mais utilizada por
apologistas, principalmente no que diz respeito a comparações junto com
traduções protestantes. Eu particularmente gosto bastante da tradução Ave
Maria, pois ela possui uma tipografia e uma leitura agradável, sendo a Bíblia
que normalmente recomendo para quem procura ter um primeiro contato com a
Sagrada escritura, pois além da leitura tranquila e explicada, acho fantástico
a propaganda e o cuidado que a própria editora Ave Maria tem com essa tradução,
fornecendo para o público uma edição de estudos - a única edição dita explicitamente
de “estudos” de uma Bíblia brasileira, rica em notas de rodapé (mesmo sabendo
que a Jerusalém e a TEB também os são - edições com tipografias e formatos
diferentes (com letras grandes, imagens, acabamentos de luxo) e até mesmo agora
recentemente uma compilação do Novo Testamento em forma de caderno próprio para
estudos de lectio divina! É muito bom porque por vários meios de uso, ela busca
diversos tipos de leitores, dando um norte para quem tem dúvidas por onde
começar. A desvantagem dela, é que ela não passou por revisões recentes por
parte da editora, uma vez que a própria tradução em francês dos monges de
Meredsous já foi revisada. Isso faz com ela tenha vestígios de uma leitura mais
formal que as demais.
Bíblia Sagrada –
Edição Pastoral (Paulus): A edição pastoral da Paulus é uma tradução
popular, compilada em 1990, com linguagem simples da Sagrada Escritura, voltada
ao uso pastoral e catequético. Apesar da tradução com termos mais simples, é
bem traduzida. É uma edição muito acessível, tanto no preço quanto na disponibilidade,
já que se distribuem muitos exemplares dessa edição. Ela possui notas de rodapé
e introduções fáceis de acompanhar e por esse motivo é muito comum encontra-la
em grupos de estudos de leigos e jovens. Existem muitas críticas em relação ao
forte apelo social e possíveis influências das ideias da teologia da libertação
nos comentários e nas notas, às vezes sutis para quem não conhece, porém muito
claras para quem tem vivência bíblica e teológica. Palavras como justiça social
e luta por terras por exemplo são bem comuns. Nos subtítulos dos livros
mostra-se essa tendência. Em Josué, por exemplo, está escrito que “A terra é
dom de conquista”, ou em Rute, que “A luta dos pobres pelos seus direitos”.
Porém mesmo essa abordagem não prejudica a tradução, tendo sido feita, acredito
eu, propositalmente para que as pastorais e as comunidades possam ter apoio na
hermenêutica dos grupos de uma maneira mais fácil de entender. Recentemente a
Paulus relançou a versão Pastoral, entitulada "Nova Bíblia Pastoral",
com um novo acabamento, nova arte e revisão na tradução dos textos. Fiquei
muito contente com o resultado final: uma Bíblia com um acabamento bonito, de
fácil acesso e com ilustrações novas. Com certeza renovou bastante a cara da
Edição Pastoral e corrigiu os erros do passado.
Bíblia Sagrada CNBB
(Edições CNBB): A tradução da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil
foi uma resposta da Igreja Católica em padronizar a leitura dos textos sagrados
em âmbito nacional, ou seja, a mesma leitura que se lê em São Paulo, é a mesma
tradução que é lida no Amazonas, inclusive inserida e atualizada nos Missais
Cotidiano e Dominical e na literatura oficial da Igreja. Apesar da
padronização, além do objetivo litúrgico durante as missas, e a união de várias
editoras católicas (incluindo Loyola, Paulinas e Santuário), não vejo essa
versão amplamente difundida entre os fiéis no uso cotidiano. Em termos de
tradução é uma versão muito bem idealizada com notas mais concisas, porém com
complementos eficientes como o Rito da Missa e leituras diárias. Como objetivo
de padronização da Sagrada Escritura entre os fiéis, na minha opinião, a única
coisa que ficou devendo para que a tradução caia mais no agrado dos estudiosos
seja uma versão de estudos dessa Bíblia, com rotas ricas e explicativas, como a
versão Ave Maria possui. Sua tradução é simples e bem parecida com a Pastoral,
já que o foco de seu uso é nas comunidades.
Bíblia Mensagem de
Deus (Loyola): A Loyola é maior uma das maiores editoras católica do Brasil
em qualidade de títulos (juntamente com a Paulus), porém acho curioso ao fato
deles terem tão pouca divulgação em suas versões da Bíblia. Se fosse definir,
diria que o “carro chefe” das Bíblias que a Loyola cuida, a TEB seria a
principal, visto que nem uma Bíblia estritamente "católica"
propriamente dita ela é (veremos adiante). Uma tradução pouco conhecida e até
mesmo um tanto "esquecida" pela própria editora é a versão Mensagem
de Deus, publicada primeiramente em 1984. Essa versão foi traduzida dos
originais pela própria Loyola junto com a Liga de Estudos Bíblicos, porém nem
todos os tradutores eram biblistas, mudando por diversas vezes sinônimos em
trechos em comum entre Evangelhos, parecendo serem expressões diferentes. Mesmo
assim é uma boa tradução, apesar dessas pequenas falhas. É uma pena a Loyola
não investir mais num acabamento mais moderno e na revisão do seu texto, pois a
primeiro momento, a tipografia de uma das encadernações oferecidas para venda
parece de uma Bíblia antiga, de uma impressão de uns cinquenta anos atrás.
Bíblia Sagrada – Nova
Tradução na Linguagem de Hoje (Paulinas): É uma tradução protestante com
linguagem popular (corrente) criada pela Sociedade Bíblica do Brasil e trazida
para o meio católico pelas Ed. Paulinas, no qual incluiu apenas os livros
deuterocanônicos. Ela é um exemplo de tradução parafraseada, e apesar de um
bonito acabamento,tem uma tradução fraca, já
que é muito simplista e até mesmo em diversos pontos vulgar. Eu diria que
serviria se você lesse a Bíblia de ponta a ponta, sem muita pretensão de
aprendizado ou objetivo religioso, já que traduções como a Pastoral cabem muito
melhor para leigos, deixando essa versão como última opção. A mudança para a
linguagem corrente sem o cuidado e a necessidade de explicações faz ela ser uma
tradução ambígua, aberta a interpretações e perigosa de certa forma, já que
ignora a observação que deve-se ter na consumação da Palavra Divina.
Bíblia Sagrada
(Editora Vozes) - A Vozes já foi no passado uma das maiores editoras
católicas do Brasil, juntamente com a editora Agir. Ela foi uma das
responsáveis pela publicação de diversos títulos apologéticos que infelizmente
acabaram caindo no esquecimento. A Bíblia Sagrada da Vozes foi traduzida por
uma equipe de exegetas católicos sob coordenação do frei Ludovico Garmus, um
excelente biblista e conhecedor das outras traduções brasileiras, soube
aproveitar o que as demais tiveram de problemas para melhorar nessa versão. O
texto foi traduzido diretamente dos originais em hebraico, aramaico e grego com
linguagem acessível. É uma versão bem feita, com uma tradução popular porém
praticamente desconhecida. O acabamento das Bíblias infelizmente é fraco, e
apesar de possuir diversas capas (para Primeira Comunhão, Para a Família,
Matrimônio, Mulher), nada muda em relação ao conteúdo. O diferencial são as figuras
impressas em todas as edições com acontecimentos bíblicos, o que compensa a
beleza pelo acabamento. Entre as Bíblias com linguagem popular é a com melhor
tradução, na minha opinião.
Bíblia Sagrada de
Aparecida (Ed. Santuário): A Bíblia de Aparecida é uma tradução direta dos
originais feita pelo biblista padre José Raimundo Vidigal como um projeto do
Santuário de Nossa Senhora Aparecida em ter sua tradução própria. É uma
tradução popular e bem parecida com a Pastoral e a versão da CNBB com
acabamentos simples e infelizmente não muito bonitos – de camurça que apagam
com o tempo. Por se tratar de um tradutor só, o texto não sofre diferenças de
modo de tradução. Pode ser uma alternativa às duas versões citadas.
Bíblias de Estudo:
Bíblia de Jerusalém
(Paulus): A Bíblia de Jerusalém é publicada pela editora Paulus. Ela é
traduzida do francês e resultado dos estudos feitos pela École Biblique de
Jérusalem, no qual foram unidos esforços de católicos e protestantes,
realizando uma tradução literal, ou seja, o mais fiel possível dos originais. É
considerada por estudiosos e especialistas em Sagrada Escritura como hoje a
melhor tradução bíblica. É uma Bíblia acadêmia, com excelente notas de rodapé e
introduções históricas dos livros, saindo do campo religioso somente e indo
bastante para o campo histórico e arqueológico. É uma Bíblia excelente para
comparações de tradução e estudos de História da Bíblia e Teologia, sendo seu
texto unânime em praticamente todos os tipos de cristãos. Porém em
contrapartida seus textos parecerão muito confusos para leigos iniciantes na
leitura da Bíblia. Ainda mais pelo fato de suas notas e introduções levarem em
consideração o conhecimento histórico prévio do leitor. Já vi em alguns
leitores a chamaram de “ecumênica” pelo fato de ter tradutores protestantes em
participação e ser uma tradução comumente utilizada por eles para estudo. Porém
sua compilação é em cima da Septuaginta, obedecendo à ordem dos livros
deuterocanônicos, e entendo que diferentemente de versões tendenciosas ou
adulteradas, houve sobriedade dos tradutores para realização deste trabalho. Seu
preço é um tanto elevado em relação à outras traduções.
A Bíblia TEB
(Tradução Ecumênica) (Loyola/Paulinas): A Bíblia TEB é mantida pelas
editoras Loyola e Paulinas, sendo essa tradução proveniente do francês, assim
como a Bíblia de Jerusalém. Aliás, tirando o valor (a Bíblia TEB é bem mais
acessível que a de Jerusalém), elas são traduções muito parecidas entre si. A
TEB nasceu como um esforço em unificar as traduções utilizadas pelas
denominações cristãs (católica, ortodoxa e protestante), junto com o judaísmo.
O antigo testamento foi traduzido essencialmente por judeus, que procuraram
mantiver os nomes originais de personagens e lugares, por esse motivo é uma
versão bastante utilizada por eles também. Outro ponto é que os livros deuterocanônicos,
foram colocados separadamente no final do Antigo Testamento, como um anexo da
versão hebraica. Os enxertos em Daniel e Ester, por exemplo, fizeram com que
essa versão tivesse dois livros de Daniel e dois livros de Ester (o hebraico e
o grego), isso é bem interessante quando se estuda a formação dos cânons, sendo
possível fazer essa comparação dos dois textos. A TEB é uma excelente Bíblia de
estudos, riquíssima em notas e apêndices. O nome “ecumênico” parece estranho
para alguns, mas é uma tradução muito bem elaborada e concebida, resultado do
excelente trabalho feito.
Bíblia Ave Maria -
Edição de Estudos (Editora Ave Maria): A edição de estudos da Bíblia Ave
Maria nada mais é do que a tradução Ave Maria com ricas notas de estudo no rodapé.
Como disse anteriormente, gosto bastante dessa tradução, além da editora Ave
Maria sempre se preocupar em manter diversos formatos diferentes da sua Bíblia,
tendo agradado diversos tipos de fiéis. Para um estudante leigo católico é uma
excelente versão e com certeza vai suprir toda necessidade explicativa de
estudos e explicações sobre a Fé. Além do preço ser acessível, levando em
consideração que é uma Bíblia de estudos.
Bíblia do Peregrino
(Paulus): Também publicada pela Paulus, eu considero a Bíblia do Peregrino
como a edição brasileira bíblica com o melhor acabamento (além de ser a mais
cara). A edição brasileira é proveniente da espanhola, que por sua vez foi
traduzida e organizada pelo padre jesuíta Luis Alonso Schökel. A diferença
dessa tradução como propriamente dito pela Ed. Paulus “se destaca não pela
transposição mecânica de palavras hebraicas, aramaicas e gregas para uma língua
moderna, mas por equivalências dinâmicas proporcionais”, ou seja, ao invés de
se focar nos termos exatos dos idiomas de origem, se deu foco aos sinônimos das
expressões, tornando melhor e mais belo e “suave” o entendimento, já que a
tradução literal torna o texto duro demais lido em português. Porém mesmo assim
ela não tende a ser propriamente uma Bíblia parafraseada. Essa Bíblia por sua
vez possui a maior quantidade de notas de rodapé que qualquer outra versão
nacional, a diferença que essas notas são voltadas para o entendimento
espiritual e religioso do texto e não o histórico (como a Bíblia de Jerusalém),
estas notas ocupando a maior parte da Bíblia (por isso ela é tão grande). É uma
excelente escolha para quem precisa de uma tradução voltada à oração e a lectio
divina, estudando os textos sagrados e meditando e se inspirando sobre seu
significado, por esse motivo seu título de “Bíblia do Peregrino” torna-o bem
conveniente em seu objetivo.
Espero que este estudo detalhado tenha atingido meu objetivo
esperado e deixo aberto mais uma vez o espaço para dúvidas ou sugestões.
Bons estudos!











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