sábado, 17 de outubro de 2015

Versões da Bíblia Sagrada. Afinal, qual devo utilizar ou qual a melhor tradução?

Um dos assuntos que ao meu ver que foi mais por assim dizer “estressado” nos canais cristãos na internet é a famosa pergunta de “Qual Bíblia devo utilizar?” ou “Qual é a melhor tradução?”. É impressionante quantas dúvidas são geradas sobre o tema, e mais impressionante ainda quantas respostas diferentes são publicadas. Tudo isso porque muitas vezes, a visão dos textos sagrados varia muito da vontade do leitor. Alguns querem uma Bíblia de estudos, outros para leitura em comunidades e pastorais e outros apenas para meditação e contemplação.
Procurei então dentro do possível fazer um post completo, não tentando induzir o estudante a adquirir uma determinada versão, mas a entender a diferença delas para escolher a melhor opção. Partindo desse ponto, responderemos as perguntas propostas. Lembrando que existem centenas de fontes na internet que podem lhes dizer algo totalmente diferente do que irei abordar. Estou utilizando como fonte desta pesquisa as edições, as editoras que as publicam, seus diversos fins e pela experiência de discussão sobre o tema, seja ele no mundo real e na internet.
Obs.: Para o artigo eu utilizei somente Bíblias católicas. Se um dia houver demanda, posso fazer também falando das demais traduções (protestantes, judaicas, ortodoxas, etc).



“Qual Bíblia devo utilizar?” ou “Qual a melhor tradução?”

A resposta mais precisa para essas perguntas seria outra pergunta: “Para qual finalidade você precisa da Bíblia?”. É necessário ver o que se adéqua a sua necessidade e que uso você fará dos textos sagrados. Isso fará total diferença na escolha da versão e como você irá interagir com o texto.


Existem três tipos basicamente de traduções bíblicas:
As literais: Que mantem-se fiéis aos textos originais em hebraico, aramaico e grego. São as mais utilizadas pelos estudantes de teologia e geralmente são ricas em notas exegéticas. A desvantagem é, de como a tradução literal é mais formal, dado a idade dos textos, ela é de difícil entendimento e compreensão, "engessando" um pouco a leitura.
As dinâmicas: Que substituem palavras dos textos originais para sinônimos ou equivalências mais próximas da nossa realidade linguística. Não mudam - em tese- seu significado, além de tornarem a leitura mais leiga e suave. A desvantagem é que se perdem alguns termos linguísticos próprios do idioma original, que muitas vezes não são tão relevantes para o público leigo em geral. Vejam que a maioria das Bíblias católicas possuem essa forma de linguagem mais acessível, uma vez que visam seu uso pastoral.
As parafraseadas: São traduções simplistas, sem se preocuparem formalmente com os textos originais. Podem ser úteis para pessoas que tem o primeiro contato com a Sagrada Escritura, porém contém diversos equívocos resultado da tradução informal demais e podem deturpar o entendimento de muitas passagens.
Geralmente o texto se encaixa em uma categoria, porém pode acontecer de seu uso ser diferente do que a própria tradução propõe - a Bíblia Ave Maria por exemplo, possui um texto acessível, porém existe uma versão com rodapés de estudo da mesma, o que em tese pode ser utilizada como Bíblai de estudos. A maioria das Bíblias católicas seguem o segundo tipo listada, ou seja, o dinâmico, portanto procurei para melhor assimilação e entendimento, dividi-las em duas formas básicas:  Bíblias de uso comum ou pastoral e Bíblias de estudo.

Bíblias de uso Pastoral:

Bíblia Sagrada Ave Maria (Ed. Ave Maria): A Bíblia Ave Maria, mantida pela editora Ave Maria desde 1959 da missão Claretiana, é uma tradução do francês da versão dos monges beneditinos belgas de Maredsous. Foi considerada uma das melhores traduções do mundo na época que foi lançada, sendo hoje uma das duas versões mais utilizadas pelos católicos (só não afirmo como a mais utilizada porque a Bíblia Pastoral da Paulus possui também uma ampla distribuição). Eu costumo fazer a analogia que a Bíblia Ave Maria está para os católicos, como a Bíblia tradução Almeida está para os protestantes, pelo fato de sua popularidade e uso. Já vi diversos comentários de pessoas que adoram e as que detestam essa tradução, alegando falhas na tradução. Isso ocorre na realidade porque essa tradução possui uma “suavização” de diversos termos para tornar a leitura mais bela e compreensível do que os termos duros de uma tradução literal trariam – como no livro de Josué, por exemplo, quando Javé diz que é um Deus “ciumento” (c.f. tradução da Bíblia de Jerusalém), a Ave Maria opta por traduzir como “zeloso”. Porém isso não deturpa ou prejudica o conteúdo de forma alguma. Ela é bastante popular junto a Renovação Carismática, porém mais ainda, tenho percebido que justamente pelo seu encaminhamento fortemente católico ela é a tradução mais utilizada por apologistas, principalmente no que diz respeito a comparações junto com traduções protestantes. Eu particularmente gosto bastante da tradução Ave Maria, pois ela possui uma tipografia e uma leitura agradável, sendo a Bíblia que normalmente recomendo para quem procura ter um primeiro contato com a Sagrada escritura, pois além da leitura tranquila e explicada, acho fantástico a propaganda e o cuidado que a própria editora Ave Maria tem com essa tradução, fornecendo para o público uma edição de estudos - a única edição dita explicitamente de “estudos” de uma Bíblia brasileira, rica em notas de rodapé (mesmo sabendo que a Jerusalém e a TEB também os são - edições com tipografias e formatos diferentes (com letras grandes, imagens, acabamentos de luxo) e até mesmo agora recentemente uma compilação do Novo Testamento em forma de caderno próprio para estudos de lectio divina! É muito bom porque por vários meios de uso, ela busca diversos tipos de leitores, dando um norte para quem tem dúvidas por onde começar. A desvantagem dela, é que ela não passou por revisões recentes por parte da editora, uma vez que a própria tradução em francês dos monges de Meredsous já foi revisada. Isso faz com ela tenha vestígios de uma leitura mais formal que as demais.


Bíblia Sagrada – Edição Pastoral (Paulus): A edição pastoral da Paulus é uma tradução popular, compilada em 1990, com linguagem simples da Sagrada Escritura, voltada ao uso pastoral e catequético. Apesar da tradução com termos mais simples, é bem traduzida. É uma edição muito acessível, tanto no preço quanto na disponibilidade, já que se distribuem muitos exemplares dessa edição. Ela possui notas de rodapé e introduções fáceis de acompanhar e por esse motivo é muito comum encontra-la em grupos de estudos de leigos e jovens. Existem muitas críticas em relação ao forte apelo social e possíveis influências das ideias da teologia da libertação nos comentários e nas notas, às vezes sutis para quem não conhece, porém muito claras para quem tem vivência bíblica e teológica. Palavras como justiça social e luta por terras por exemplo são bem comuns. Nos subtítulos dos livros mostra-se essa tendência. Em Josué, por exemplo, está escrito que “A terra é dom de conquista”, ou em Rute, que “A luta dos pobres pelos seus direitos”. Porém mesmo essa abordagem não prejudica a tradução, tendo sido feita, acredito eu, propositalmente para que as pastorais e as comunidades possam ter apoio na hermenêutica dos grupos de uma maneira mais fácil de entender. Recentemente a Paulus relançou a versão Pastoral, entitulada "Nova Bíblia Pastoral", com um novo acabamento, nova arte e revisão na tradução dos textos. Fiquei muito contente com o resultado final: uma Bíblia com um acabamento bonito, de fácil acesso e com ilustrações novas. Com certeza renovou bastante a cara da Edição Pastoral e corrigiu os erros do passado.


Bíblia Sagrada CNBB (Edições CNBB): A tradução da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil foi uma resposta da Igreja Católica em padronizar a leitura dos textos sagrados em âmbito nacional, ou seja, a mesma leitura que se lê em São Paulo, é a mesma tradução que é lida no Amazonas, inclusive inserida e atualizada nos Missais Cotidiano e Dominical e na literatura oficial da Igreja. Apesar da padronização, além do objetivo litúrgico durante as missas, e a união de várias editoras católicas (incluindo Loyola, Paulinas e Santuário), não vejo essa versão amplamente difundida entre os fiéis no uso cotidiano. Em termos de tradução é uma versão muito bem idealizada com notas mais concisas, porém com complementos eficientes como o Rito da Missa e leituras diárias. Como objetivo de padronização da Sagrada Escritura entre os fiéis, na minha opinião, a única coisa que ficou devendo para que a tradução caia mais no agrado dos estudiosos seja uma versão de estudos dessa Bíblia, com rotas ricas e explicativas, como a versão Ave Maria possui. Sua tradução é simples e bem parecida com a Pastoral, já que o foco de seu uso é nas comunidades.
Bíblia Mensagem de Deus (Loyola): A Loyola é maior uma das maiores editoras católica do Brasil em qualidade de títulos (juntamente com a Paulus), porém acho curioso ao fato deles terem tão pouca divulgação em suas versões da Bíblia. Se fosse definir, diria que o “carro chefe” das Bíblias que a Loyola cuida, a TEB seria a principal, visto que nem uma Bíblia estritamente "católica" propriamente dita ela é (veremos adiante). Uma tradução pouco conhecida e até mesmo um tanto "esquecida" pela própria editora é a versão Mensagem de Deus, publicada primeiramente em 1984. Essa versão foi traduzida dos originais pela própria Loyola junto com a Liga de Estudos Bíblicos, porém nem todos os tradutores eram biblistas, mudando por diversas vezes sinônimos em trechos em comum entre Evangelhos, parecendo serem expressões diferentes. Mesmo assim é uma boa tradução, apesar dessas pequenas falhas. É uma pena a Loyola não investir mais num acabamento mais moderno e na revisão do seu texto, pois a primeiro momento, a tipografia de uma das encadernações oferecidas para venda parece de uma Bíblia antiga, de uma impressão de uns cinquenta anos atrás.


Bíblia Sagrada – Nova Tradução na Linguagem de Hoje (Paulinas): É uma tradução protestante com linguagem popular (corrente) criada pela Sociedade Bíblica do Brasil e trazida para o meio católico pelas Ed. Paulinas, no qual incluiu apenas os livros deuterocanônicos. Ela é um exemplo de tradução parafraseada, e apesar de um bonito acabamento,tem uma tradução fraca, já que é muito simplista e até mesmo em diversos pontos vulgar. Eu diria que serviria se você lesse a Bíblia de ponta a ponta, sem muita pretensão de aprendizado ou objetivo religioso, já que traduções como a Pastoral cabem muito melhor para leigos, deixando essa versão como última opção. A mudança para a linguagem corrente sem o cuidado e a necessidade de explicações faz ela ser uma tradução ambígua, aberta a interpretações e perigosa de certa forma, já que ignora a observação que deve-se ter na consumação da Palavra Divina.


Bíblia Sagrada (Editora Vozes) - A Vozes já foi no passado uma das maiores editoras católicas do Brasil, juntamente com a editora Agir. Ela foi uma das responsáveis pela publicação de diversos títulos apologéticos que infelizmente acabaram caindo no esquecimento. A Bíblia Sagrada da Vozes foi traduzida por uma equipe de exegetas católicos sob coordenação do frei Ludovico Garmus, um excelente biblista e conhecedor das outras traduções brasileiras, soube aproveitar o que as demais tiveram de problemas para melhorar nessa versão. O texto foi traduzido diretamente dos originais em hebraico, aramaico e grego com linguagem acessível. É uma versão bem feita, com uma tradução popular porém praticamente desconhecida. O acabamento das Bíblias infelizmente é fraco, e apesar de possuir diversas capas (para Primeira Comunhão, Para a Família, Matrimônio, Mulher), nada muda em relação ao conteúdo. O diferencial são as figuras impressas em todas as edições com acontecimentos bíblicos, o que compensa a beleza pelo acabamento. Entre as Bíblias com linguagem popular é a com melhor tradução, na minha opinião.


Bíblia Sagrada de Aparecida (Ed. Santuário): A Bíblia de Aparecida é uma tradução direta dos originais feita pelo biblista padre José Raimundo Vidigal como um projeto do Santuário de Nossa Senhora Aparecida em ter sua tradução própria. É uma tradução popular e bem parecida com a Pastoral e a versão da CNBB com acabamentos simples e infelizmente não muito bonitos – de camurça que apagam com o tempo. Por se tratar de um tradutor só, o texto não sofre diferenças de modo de tradução. Pode ser uma alternativa às duas versões citadas.





Bíblias de Estudo:


Bíblia de Jerusalém (Paulus): A Bíblia de Jerusalém é publicada pela editora Paulus. Ela é traduzida do francês e resultado dos estudos feitos pela École Biblique de Jérusalem, no qual foram unidos esforços de católicos e protestantes, realizando uma tradução literal, ou seja, o mais fiel possível dos originais. É considerada por estudiosos e especialistas em Sagrada Escritura como hoje a melhor tradução bíblica. É uma Bíblia acadêmia, com excelente notas de rodapé e introduções históricas dos livros, saindo do campo religioso somente e indo bastante para o campo histórico e arqueológico. É uma Bíblia excelente para comparações de tradução e estudos de História da Bíblia e Teologia, sendo seu texto unânime em praticamente todos os tipos de cristãos. Porém em contrapartida seus textos parecerão muito confusos para leigos iniciantes na leitura da Bíblia. Ainda mais pelo fato de suas notas e introduções levarem em consideração o conhecimento histórico prévio do leitor. Já vi em alguns leitores a chamaram de “ecumênica” pelo fato de ter tradutores protestantes em participação e ser uma tradução comumente utilizada por eles para estudo. Porém sua compilação é em cima da Septuaginta, obedecendo à ordem dos livros deuterocanônicos, e entendo que diferentemente de versões tendenciosas ou adulteradas, houve sobriedade dos tradutores para realização deste trabalho. Seu preço é um tanto elevado em relação à outras traduções.


A Bíblia TEB (Tradução Ecumênica) (Loyola/Paulinas): A Bíblia TEB é mantida pelas editoras Loyola e Paulinas, sendo essa tradução proveniente do francês, assim como a Bíblia de Jerusalém. Aliás, tirando o valor (a Bíblia TEB é bem mais acessível que a de Jerusalém), elas são traduções muito parecidas entre si. A TEB nasceu como um esforço em unificar as traduções utilizadas pelas denominações cristãs (católica, ortodoxa e protestante), junto com o judaísmo. O antigo testamento foi traduzido essencialmente por judeus, que procuraram mantiver os nomes originais de personagens e lugares, por esse motivo é uma versão bastante utilizada por eles também. Outro ponto é que os livros deuterocanônicos, foram colocados separadamente no final do Antigo Testamento, como um anexo da versão hebraica. Os enxertos em Daniel e Ester, por exemplo, fizeram com que essa versão tivesse dois livros de Daniel e dois livros de Ester (o hebraico e o grego), isso é bem interessante quando se estuda a formação dos cânons, sendo possível fazer essa comparação dos dois textos. A TEB é uma excelente Bíblia de estudos, riquíssima em notas e apêndices. O nome “ecumênico” parece estranho para alguns, mas é uma tradução muito bem elaborada e concebida, resultado do excelente trabalho feito.



Bíblia Ave Maria - Edição de Estudos (Editora Ave Maria): A edição de estudos da Bíblia Ave Maria nada mais é do que a tradução Ave Maria com ricas notas de estudo no rodapé. Como disse anteriormente, gosto bastante dessa tradução, além da editora Ave Maria sempre se preocupar em manter diversos formatos diferentes da sua Bíblia, tendo agradado diversos tipos de fiéis. Para um estudante leigo católico é uma excelente versão e com certeza vai suprir toda necessidade explicativa de estudos e explicações sobre a Fé. Além do preço ser acessível, levando em consideração que é uma Bíblia de estudos.


Bíblia do Peregrino (Paulus): Também publicada pela Paulus, eu considero a Bíblia do Peregrino como a edição brasileira bíblica com o melhor acabamento (além de ser a mais cara). A edição brasileira é proveniente da espanhola, que por sua vez foi traduzida e organizada pelo padre jesuíta Luis Alonso Schökel. A diferença dessa tradução como propriamente dito pela Ed. Paulus “se destaca não pela transposição mecânica de palavras hebraicas, aramaicas e gregas para uma língua moderna, mas por equivalências dinâmicas proporcionais”, ou seja, ao invés de se focar nos termos exatos dos idiomas de origem, se deu foco aos sinônimos das expressões, tornando melhor e mais belo e “suave” o entendimento, já que a tradução literal torna o texto duro demais lido em português. Porém mesmo assim ela não tende a ser propriamente uma Bíblia parafraseada. Essa Bíblia por sua vez possui a maior quantidade de notas de rodapé que qualquer outra versão nacional, a diferença que essas notas são voltadas para o entendimento espiritual e religioso do texto e não o histórico (como a Bíblia de Jerusalém), estas notas ocupando a maior parte da Bíblia (por isso ela é tão grande). É uma excelente escolha para quem precisa de uma tradução voltada à oração e a lectio divina, estudando os textos sagrados e meditando e se inspirando sobre seu significado, por esse motivo seu título de “Bíblia do Peregrino” torna-o bem conveniente em seu objetivo.


Espero que este estudo detalhado tenha atingido meu objetivo esperado e deixo aberto mais uma vez o espaço para dúvidas ou sugestões.


Bons estudos!

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